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escrevi esse texto para o livro Antologia da Lapa, crônicas organizadas por Gasparino Damata , numa edição da Editora Desiderata-2007.

A LAPA EM DOIS SAMBAS

A memória, feito agulha de uma vitrola antiga, “sulca” os versos de Wilson Batista:

Meu chapéu do lado

Tamanco arrastando

Lenço no pescoço

Navalha no bolso

Eu passo gingando, provoco e desafio,

Eu tenho orgulho de ser tão vadio.

Este samba fez parte da clássica rivalidade entre Wilson e Noel Rosa, mas a intuição me faz buscar a estrofe para visitar a Lapa.

Diz a lenda que Madame Satã, intitulado capoeirista  num site de busca na internet, deu um rabo de arraia no maravilhoso Geraldo Pereira que fez o autor de Falsa Baiana morrer da certeira rasteira. Alguns até hoje apontam o paralelepípedo que consumou a tragédia e é por conta de fatos assim, que, para atravessar a Mem de Sá, ou dobrar a Rua do Lavradio num passado recente, era preciso o tamanco arrastando, lenço no pescoço e a navalha no bolso.

Pra não entronar de vez a malandragem porque nem tudo é sapato branco ou camisa listrada, Oscar Niemeyer confessou numa entrevista que gastou sua juventude nos cabarés do bairro. Depois virou esse consagrado brasileiro.

Na minha história a tinta é fresca.

Nascido na Serrinha, Madureira, Ivan Milanêz até usa um chapéu do lado. Toca pandeiro de profissional e cismou de farfalhar as platinelas do instrumento embaixo dos Arcos da Lapa nos primeiros momentos da década de noventa.

Eu voltava de um show na redondeza. O paladar lembra uma carne assada feita do lagarto plano e servida num escondido boteco da Joaquim Silva, rua que passa por trás da Sala Cecília Meireles e também endereço da Musidisc, uma gravadora que lançou o disco A Voz do Morro com Zé Kéti, Elton Medeiros e Paulinho da Viola, entre outros. Sinceramente não foi o molho ferrugem ou o tempero da carne que me fez optar pelo pé-sujo. Era a Lapa, aquele reduto.

Em frente, outro bar, Semente, nem de longe incluía samba no repertório. O piston solitário que brilhava da única luz do salão, improvisava sobre uma harmonia de rumba com síncopes de bongôs, solos intermináveis e o local ganhava forma de um exílio cubano qualquer.

A calçada guarda granitos de lastros portugueses. Não chove e eu penso, deserto, em contornar a Riachuelo até a altura da Lavradio, perto dos travestis mais cascudos, querendo matar  a sede no chope do Capela. Uma aspa: prefiro o chope do Bar Brasil, mas na madrugada, só lá era servido com cabrito ou canja carregada na hortelã.

Antes de fechar, uma medalha. Não se comia cabrito no Rio de Janeiro. Tirando festas religiosas, o pequeno bode era indigesto pra uma refeição boêmia. Na Lapa, não.

Volto ao trajeto. Alias, não fiz percurso algum. Parei nos Arcos e vi aquele pandeiro acompanhando sambas da Portela e do Império Serrano. Como não chovia, nem gatos pingavam, mas uma energia de mudar o mundo. Nada existia, nem o Circo Voador, Belmonte, Informal, nada. Um samba e alguns bêbados que permanecem etílicos até hoje e estava feito o movimento do dia.

Acho que também não existiam ainda palavras como revitalização ou patrimônio público.

E a roda cresceu. Ivan e Marquinhos de Oswaldo Cruz fazendo escola. O Bar Semente largou o ritmo de Compay Segundo e apresentou ao bairro a Teresa Cristina com seu grupo e depois o violão do Yamandú Costa.

Simultâneo, num daqueles maravilhosos antiquários do bairro surgia sob a orientação intelectual do grande Lefê Almeida, outra roda de samba com um repertório cercado de referências aos anos 40 e 50. Pronto, estava criada uma moda espontânea que arrastou uma juventude enfastiada do que se ouvia nas rádios a freqüentar com suas sandálias havaianas a nova boemia carioca.

Pressinto que nesse momento o mito Madame Satã dá lugar a outra grife: Samba de Raiz.

Como sou um sujeito que vou a tudo que é portinha ver a qualidade da música ou do jiló, presenciei cada casa que abriu. E continuam, estilizados,  tijolo aparente, pé direito alto, móvel de demolição, surdo, tamborim, cavaquinho e violão, diariamente novos ensaios de futuro.

Carioca da Gema, Teatro Odisséia, Sacrilégio e Brasil Mestiço, são musicais. Antônio´s, Taberna do Juca, Bar Brasil e Capela, são paladares.

Na Lapa de hoje  as meninas beijam pela vez primeira. Os meninos fumam de enevoar a rua e casais clandestinos inventam um plantão pra sapatear um samba que os isenta de culpa: Sem Compromisso. Um desavisado grita: Salve Chico Buarque!  Mas o samba é de Geraldo Pereira.

Quase um ciclo, o bairro se desconstruiu para, rodriguiano, se construir na parede de pedra e óleo de baleia. O magueirense,  morto na tesoura voadora, renasce na voz dos sambistas ora de tamanco, ora  sandálias praianas com o mesmo sentimento.

Pra modernizar, fecho com outra estrofe, essa sim, do Chico:

Eu fui fazer um samba em homenagem

À nata da malandragem

Que eu conheço de outros carnavais

Eu fui a Lapa e perdi a viagem

Que aquela tal malandragem

Não existe mais…

Moacyr luz